NEI LISBOA

em casa e (ao) vivo

(Des)invertendo sinais

No início de abril, publiquei aqui no blog uma queixa intensa por ter sido desclassificado em edital do governo do estado do RS, derivado da Lei Aldir Blanc – o Prêmio Trajetórias Culturais Mestra Sirley Amaro. Foi um desabafo cego para muitas coisas. Depois de um ano sem shows, recuperando de uma covid grave, o edital surgia para mim como uma tábua salvadora: seriam 1.500 premiados por suas trajetórias, quesito em que já pela idade estava favorecido, e naturalmente estaria entre os selecionados, certo? Errado, errei e muito.


Ao longo desses meses, recebi e absorvi críticas vindas de gente que respeito e admiro, apontando uma postura elitista e racista na minha manifestação. O prêmio trazia bem exposto em seu nome um viés de reparação histórica, com o sentido de conferir visibilidade a quem dela carece e merece. E apegado ao perfil de homem branco de classe média, com todos os privilégios que implica, não dei a isso a atenção devida. Concorri quatro vezes em editais da Secretaria da Cultura do RS e nunca fui contemplado, ok. Mas quando questionei, no texto, um suposto partidarismo político nas escolhas da SEDAC, reagia a isso de forma infantil, sem fundamentação, e sobretudo sem levar em conta a realidade cotidiana de uma maioria excluída que, no mais das vezes, não lhe permite sequer a possibilidade de concorrer ou de se queixar.


Custei a entender que não se trata de discutir objetivamente o edital. Se a terceirização foi o caminho correto ou não, se a formulação foi bem feita, se o resultado prático correspondeu, tudo isso perde sentido diante do simbolismo de se orientar uma política pública a quem é histórica e insistentemente preterido. Qualquer contraponto que se faça carrega a mesma subjetividade, com sinal invertido: o de uma prepotência. O prêmio Trajetórias contemplou quase 200 municípios gaúchos, boa parte de população menor que 5 mil habitantes. Quando comentei essa capilarização em microcomunidades, tinha em mente um interior do estado comparativamente rico, muitas vezes de predominância branca e européia. Devia ter sido mais cuidadoso ao usar o termo, para que não se visse ali uma referência ao RS profundo e carente, à população quilombola, aos povos indígenas.


Sem a perspectiva do edital, fui à luta por minha conta. Provavelmente no maior erro, referenciei com o nome de "Quanto vale uma trajetória?" um financiamento coletivo, recurso que guardava para a futura produção de um disco, não para uma emergência pessoal. Acabou por servir a ambos, com a meta renovada pelo sucesso da campanha, motivado fortemente pela doença e internação recentes, pelos programas na internet que vinha fazendo durante a pandemia e pela recompensa do EP. Mas a menção ao prêmio, se buscava resgatar do público uma valoração simbólica, também alavancou apoios concretos em solidariedade e soou para alguns como afronta, como falta de empatia com aqueles que vivem na invisibilidade das periferias suas trajetórias de valor imensurável e gigantes dificuldades.


Àquela altura, uma enorme discussão já surgia em torno do Prêmio Trajetórias nas redes sociais, trazendo à tona problemas operacionais do edital, entre algoritmos, segmentações, outras querelas técnicas e mais uma procissão de reclames, por vezes sensatos, noutras extrapolando o bom senso ou abertamente preconceituosos. Não participei do debate e, provocado, reafirmei apenas que a política de cotas é essencial em todas as áreas. Também não entrei com qualquer recurso, e pedi ao Instituto Trocando Ideia (ITI) pela exclusão da minha inscrição, no que não fui atendido.


Não postulei a anulação do prêmio, não formulei ofensas, não cogitei de qualquer embargo jurídico – e esse rol de negativas serve, a bem da verdade, para coisa nenhuma, senão para a vala comum das justificativas. O post do blog esteve insistentemente em matérias de jornal sobre o assunto, tornando-se representação coletiva, e essa é a realidade que fica. Já estou bem curtido no trato com a mídia para saber que tal coisa costuma e que poderia acontecer, sobretudo nas redes sociais com suas fake news fantásticas, as quais seria inútil corrigir: não, nunca fui funcionário da Procergs, nem recebo qualquer salário. Também não tenho imóvel, carro, aposentadoria, plano de saúde, poupança, dinheiro de família. Que consequência traria, além de alimentar uma inversão de sinais, como já me referi, para aqueles a quem falta comida, roupa, remédio, leite para os filhos, acesso à educação e respeito aos seus direitos civis?


O Prêmio Trajetórias produziu também seus erros, e talvez de uma forma agravada para os próprios contemplados. Três meses depois da data inicial prevista, alguns nada ainda haviam recebido, em expectativa dramática para os dias críticos que vivemos. Outros surpreendiam-se com um alto desconto no valor. Ao longo do processo, sucederam-se várias e diferentes listas de classificação, a extensão recorrente de prazos de recursos e resultados, confusas mudanças de metodologia, a reconvocação dos inscritos, ruídos de comunicação, dissonâncias entre a SEDAC e o ITI. Parece difícil imputar a concorrentes reclamantes todos esses problemas e uma delonga tão grande.


Fruto de uma terceirização, em que a secretaria remunerou o ITI com verba substancial* para a realização do edital, o trabalho carrega consigo responsabilidades que não podem ser terceirizadas. Queixas, sapateado ou gritaria não têm poder de revisar regras de um concurso como esse se não estiverem bem fundamentadas em falha ou imprevidência do próprio edital. O que parece ter sido o caso. E assim sendo, esperaria-se agilidade de quem detém os recursos, a habilitação e a experiência para as correções necessárias.


Da minha parte, lamento muitíssimo o tanto de tristeza e preconceito que possa ter inspirado. Espero levar do episódio um aprendizado que me faça mais sensato, sensível e solidário com quem demanda por igualdade e justiça, e cuidadoso com as palavras. Que estejam parabenizados todos os contemplados com o prêmio, e desejo que a ele se sigam com sucesso muitas outras iniciativas como essa.


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* Edit: na redação original, "mais de um milhão de reais", estimando a partir de 10% do valor de doze milhões distribuído pelo prêmio, limite previsto na terceirização. O Instituto Trocando Ideia informa que recebeu apenas 5,6%.

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