NEI LISBOA

em casa e (ao) vivo

Sobre trajetórias

Estou, como tantos já se mostraram, espantado com o resultado do edital Trajetórias Culturais, da Secretaria da Cultura aqui do RS. Dificilmente um edital como esse escapa de distorções e de motivações pessoais nos pareceres. Já fui preterido em vários, venci aqui e ali, e não gosto de lamuriar essas coisas. Muita gente indiscutivelmente merecedora foi escolhida e há que se ter cuidado para não abalar essa legitimidade.


Agora, em um universo tão amplo quanto o de 1.500 selecionados, e qualificados exatamente por sua trajetória cultural, deixar de fora nomes como o de Santiago, Frank Jorge, Luiz Carlos Borges, Luis Vagner, Tonho Crocco, Fughetti Luz – e o meu, sim – soa como uma ostensiva provocação, e de alguma forma como um sequestro da ideia fundadora da Lei Aldir Blanc, na autoria da Benedita da Silva.


Não por acaso, talvez, uma maioria dos citados nessa condição têm afinidade política com a oposição ao governo do Estado. Também a capilaridade máxima, que parece ter orientado a premiação para personagens queridos de microcomunidades, pode ser uma inspiração democrática tanto quanto um instrumento poderoso de cooptação eleitoral. E a própria terceirização do edital, acho que mereceria maior debate e exame com uma lupa investigativa.



Fosse apenas pelo simbólico, e os protestos não seriam tão contundentes. O diacho é que estamos todos, pipoqueiros e estrelas da canção, quebrados há mais de ano pelo único lockdown efetivamente decretado e cumprido no país, o dos palcos e plateias. E os R$ 8 mil do prêmio são um aporte bem significativo. De outro jeito, estaria me lixando para o que pareceristas da SEDAC acham da minha, da nossa trajetória cultural. Cá entre nós, há outras réguas que medem com mais precisão o valor de um Macanudo Taurino ou o que o Bixo da Seda representou para a cultura pop gaúcha.


Mas verba pública é patrimônio de todos, responsabilidade coletiva, sempre, de gestão pontualmente delegada. Quem sabe até andássemos melhor, nessa matéria de auxílios à Cultura, distribuindo uma quantia menor para todos os inscritos habilitados. Seria certamente mais simpático e apaziguador de tensões para a classe e as comunidades.


Enfim, nesse abril em que até as gorjetas das lives estão canceladas, por aqui, enquanto recupero o fôlego da internação pela covid (e com que alegria, acreditem!), esse perrengue do edital me trouxe ao menos um mote para embalar um financiamento coletivo que defina meu valor artístico e cultural – preciso me livrar dessa angústia periculosa, sem descuidar também da asfixia de bancar o aluguel e a conta de luz.


Vai ao ar amanhã (quinta 08/abr) pela plataforma Benfeitoria, com o título "Quanto vale uma trajetória?" e a meta de arrecadação de R$ 7.999,00. É na modalidade flex, desobrigada de alcançar esse valor ousado, o limite máximo do que quarenta anos de estrada, suor, lágrimas e diversão possam valer.


Um real a mais que isso, já estou ciente de que não pode.


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P.S.: Santiago, convite prontamente aceito, e aguardo com ansiedade a ficha de filiação ao MSTC — Movimento dos Sem Trajetória Cultural. Vamos à luta! Sem rumo, obviamente, e espraiando cultura pra tudo quanto é lado.

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