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Sete a um

Descartados os merda, porra, foder e putaria bem próprios ao linguajar da milícia mais tosca, o vídeo da reunião ministerial liberado semana passada mais impressiona nas perversões políticas exibidas pelos que tomam a palavra, com a maior franqueza e sem pestanejar. Da parte de Bolsonaro, a missão óbvia é torrar o ex-ministro da justiça e poupar os filhos e a si mesmo de qualquer investigação. Ladeado por uma junta militar, torna patente também o interesse em um golpe de estado que facilite as coisas, ao acenar com todo tipo de barbárie institucional e recebendo o aplauso sabujo dos ministros da Educação e da Infraestrutura.


O ministro Salles, do Meio Ambiente, no mais descarado oportunismo, sugere que se aproveite a distração da imprensa e do público com a Covid-19 para desregulamentar todo o possível na área ambiental. E abusa da inteligência alheia sugerindo que o mundo espera exatamente isso do Brasil. Sobre o assunto, vale uma conferida em matéria do último Fantástico, da agora companheira e militante rede Globo, disponível aqui.


Paulo Guedes é um ideólogo neoliberal de inspiração nazista, como bem demonstrado nesse fio do twitter de Fernando L’Ouverture. Mas invoca a reconstrução da Alemanha, com aquele estilo sapiente de técnico de futebol de praia, para modelar a estratégia que resultará na retomada da economia e no pleno emprego: “absorver” nos quartéis um milhão de jovens, a R$ 200/mês por cabeça, para que estudem OSPB pela manhã e construam estradas de tarde.



O Banco do Brasil, que financia 60% da agricultura brasileira, entra na pauta da conversa e Guedes lasca “tem que vender essa porcaria”, para deleite e gargalhada do seu chefe. O presidente da instituição sai em tímida defesa mas acaba por admitir a privatização do BB, ao que Bolsonaro satisfeito determina “mas só se fala disso em 2023”. O ministro do Turismo tem sua própria panaceia para a retomada no setor: cassinos, que ele assegura não terão nenhum impacto na vida familiar dos brasileiros. Mas ouve-se do outro lado da sala a voz da ministra Damares discordando: “Pacto com o diabo!”.


Mencionando também um “pacto do Brasil”, e citando o exemplo da Alemanha Oriental depois da queda do muro, o ministro do Desenvolvimento Regional é o único a demonstrar alguma consternação pelos desfavorecidos, quem sabe penitenciando-se do passado recente de articulador da reforma da previdência no Congresso. Teich, ainda na Saúde, por óbvio faz da pandemia o assunto de sua fala, mas reverbera o descaso geral ao focar na ideia de uma “comunicação eficiente” que possa desfazer o temor reinante na população.


O general Braga Netto, ministro-chefe da Casa Civil que já foi citado como “presidente operacional”, é quem abre os trabalhos do dia. Logo no início do vídeo, apresenta o tema central da reunião: o Pró-Brasil, descrito pelo autor como um “Plano Marshall brasileiro”, antecipa uma calamidade de proporções comparáveis. Mas não se trata aqui de socorrer a Europa, e sim aos próprios brasileiros das duras consequências da pandemia. De todo modo, foi a primeira das três referências à Alemanha do pós-guerra que se seguiram, em projeções de uma salvação nacional futura. Inspiradas pelo ainda traumático sete a um na copa de 2014, quem sabe, ou então é mesmo o Terceiro Reich que anda povoando a imaginação fértil do nosso poder executivo.


* * *


Quinta-feira é dia de live, às 17h em youtube.com/neilisboatv e também na videoteca do site.

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