NEI LISBOA

em casa e (ao) vivo

Datemi un martello

No meio do caminho tinha um fio esticado, tinha um fio esticado no meio do caminho. O pé prendeu, o corpo se foi para a frente e para o chão, e me socorri apoiando a mão de mau jeito num marco de porta – todo o peso em cima do polegar. Doeu como uma martelada de ferreiro e jurei que tinha quebrado, mas não. Só me tirou do ar por uma semana, que sem tocar violão o programa das quintas-feiras no youtube perderia muito da graça.


Aproveito então a folga compulsória para retomar este blog abandonado há um tempão. Os dias vinham sendo de muito trabalho em torno do ao vivo, além da louça da quarentena por lavar. Mas também tinha enjoado um pouco de escrever sobre a tragédia do bozo-Brasil que amargamos. É tarefa insana, não se consegue abarcar o tamanho do desastre e digerir o apoio ou a conformidade que o sustentam. Dói só de olhar, como a esse dedo inchado.


Dia desses saiu pesquisa na qual o governo Bolsonaro tem 37% de aprovação. Dou de barato que uns 10% se beneficiem com a destruição do país – o mercado financeiro e o empresariado conectado com o capital internacional, latifundiários, militares, asseclas e dependentes, milicianos e jagunços de todo tipo, vá lá. Mas e o resto? É ainda um grande naco da população julgando bom ou ótimo que lhe assaltem o bolso e o patrimônio, que destrocem a educação e a saúde públicas, que ataquem todas as políticas de proteção social, que degradem o meio ambiente. Difícil de entender e de aceitar, é como uma dor irritante, como um dedo martelado pulsando.


Bolsonaro militarizou e paralisou o Estado, deixou acéfalo o ministério da saúde durante uma pandemia que assombra o mundo por ele subestimada e ridicularizada sistematicamente, vendendo o peixe podre de um remédio ineficaz e de compra superfaturada sob investigação. Bolsonaro congelou salários, surrupiou direitos na reforma previdenciária e fará o mesmo com a reforma administrativa, que prevê também a extinção de mais de duzentos fundos públicos. Bolsonaro incapacitou o Ibama e a Funai, suspendeu a fiscalização ambiental na Amazônia e no Pantanal, estimulou as queimadas, a grilagem e a invasão de terras indígenas e liberou quatrocentos novos agrotóxicos. Bolsonaro bloqueou verbas da educação, ciência e tecnologia, quis extinguir o Fundeb, esvaziou o CNPq, interviu no INPE e nas universidades federais. Ai, meu dedo.


Bolsonaro entregou a base de Alcântara aos EUA, está entregando o pré-sal às petroleiras estrangeiras e vai entregar de bandeja todo o patrimônio público que conseguir ao mercado financeiro e ao capital privado. Não é uma ameaça, é um projeto já em curso declarado e escancarado. Bolsonaro aniquilou as políticas de inclusão racial e de gênero, o investimento em cultura, a política externa e a imagem do Brasil, e reduziu qualquer precária ilusão de um pacto social e democrático nacional a bravatas do tipo fechar o STF, armar a população miliciana e encher jornalista de porrada.


Resumindo: Bolsonaro é um déspota incompetente, um energúmeno assassino, mentiroso compulsivo, patife, desonesto, velhaco, perverso e escroto eleito presidente da república deste país por obra e graça de uma justiça mercenária e uma imprensa conivente, pródigas em encarcerar adversários e pavimentar o caminho para qualquer racifascismo que apareça contanto que vejam suas benesses e privilégios assegurados. Lamento pela franqueza que me assola mas, meu amigo, quem hoje não enxerga isso, então nem com uma martelada no dedo vai acordar.



Publicações Recentes

Datemi un martello

No meio do caminho tinha um fio esticado, tinha um fio esticado no meio do caminho. O pé prendeu, o corpo se foi para a frente e para o c...

Com fibra

A vida na era digital é uma promessa permanente de felicidade que, cá entre nós, pouco se realiza ou se cumpre aos trancos e arrancos, co...

Sete a um

Descartados os merda, porra, foder e putaria bem próprios ao linguajar da milícia mais tosca, o vídeo da reunião ministerial liberado sem...

assista

colabore

Sobre a campanha

Para os que quiserem colaborar com o site e a subsistência dos autores durante o confinamento da covid-19, abrimos duas modalidades de colaboração. A primeira, através de um QR Code do PicPay – a moeda corrente das lives –, pode ser usada para contribuição de qualquer valor com um cartão de crédito:

A segunda forma, através da plataforma Sympla onde sempre oferecemos ingressos de shows, traz três valores de contribuição listados como um menu de primeiras necessidades do estúdio – o bom humor, como se vê, também está entre elas:

  • Café em pó - Item básico em qualquer estúdio, aqui consumido em largas doses. Os abnegados que tirarem do bolso curto pra sustentar esse nosso vício estão convidados a aparecer e tomar um cafezinho com a gente, tipo... daqui uns quatro meses hehe.

  • Álcool gel - Esse é essencial, né, não dá pra dispensar uma garrafinha bem à mão. De valor inflacionado e até difícil de encontrar. Contribuição que vale um super abraço, por enquanto virtual, espera só até agosto...

  • Internet - Outra despesa forte é a de internet, celulares, hospedagem, programetes e tudo aquilo que aqui faz a comunicação acontecer. Já estamos dando início às lives, e podemos agradecer todos ao vivo, dia desses quem sabe até bater um papinho no ar...

O site, o blog e as lives estarão sempre abertos a todos sem cobrança alguma, feitos com grande prazer e obviamente também com algum custo e muito trabalho. Toda contribuição é bem-vinda e igualmente agradecida de coração.

  • Spotify - Círculo Branco
  • Deezer - Círculo Branco
  • YouTube - Círculo Branco
  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle
  • Twitter - Círculo Branco

fique por dentro

Receba as novidades do site por e-mail.

© 2020 Nei Lisboa