NEI LISBOA

em casa e (ao) vivo

Chá de panelaço

Quis o horóscopo chinês, em ano de camundongo, me presentear com uma nova casa justo na chegada do coronavírus e da quarentena. Sei de todas as tormentas do mundo, a pandemia, a fome, a tortura, mas a mudança de apartamento não fica muito atrás. Empacotar uma existência, socar dentro de um caminhão e desembrulhar lá adiante é uma trabalheira de enlouquecer. Por outro lado, é também uma chance de passar a limpo a vida e as gavetas, descartando quinquilharias que a preguiça acumula com a desculpa de que possam um dia ter utilidade.


Para o mal e para o bem, uma revolução. Ou duas para cada um: depois de anos de ensaio, Cíntia Belloc e eu juntamos os trapinhos e subimos na vida trezentos metros por uma lomba do Rio Branco, quase Bela Vista. Dá pra dizer que é um achado, considerando o ganho em espaço e algum ajuste fiscal no aluguel. E mais, estamos no único edifício com cupins, em meio aos condomínios garden dos arredores, com o grosso da população concentrada no nosso apartamento que esteve por muitos meses desocupado.


Não gosto de contar vantagem, mas em tempos de solidão compulsória podemos alardear que o distanciamento social no nosso caso é voluntário, uma lua de mel caseira, e que a companhia dos cupins anima a hora das refeições, ainda que prefiram as portas e janelas à mesa da cozinha. O bom espaço também vem muito a calhar, e não apenas porque ambos trabalhamos em casa desde sempre, ela com o estúdio de design gráfico, eu administrando o alter ego de cantautor. Alguns metros a mais desde a sala até o quarto ajudam na hora de se esticar as pernas, variar a paisagem e driblar as câimbras ou a monotonia do confinamento.


Da vizinhança, ainda pouco sabemos. A do nosso pequeno prédio é simpática e discreta, mas a redondeza em geral carrega a fama das manifestações à direita e seu extremo, apoiando o golpe, o Bolsonaro, chamando por intervenção militar. Nos panelaços de protesto dos últimos dias, por aqui ouviu-se alguma coisa que soava às vezes mais próximo de uma caçarola gourmet arrependida. Eu mesmo relutei em chegar chegando em território inimigo, o que me valeu um rebaixe descorçoado no olhar da Cíntia, e quero reparar isso de público aqui. Quem sabe como em um chá de panela virtual, se possa acrescentar na lista de contribuições para o site este artefato sensacional que o Giba Carnos criou e mostra no vídeo logo abaixo, e que prometo usar sem hesitação na alegria e na tristeza, até o Bozo cair.


Abçs, Nei


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