NEI LISBOA

em casa e (ao) vivo


Bem ou mal, Bolsonaro já garantiu seu lugar na História. Sobretudo mal, claro. Mas ser lembrado como um vilão cruel encastelado por desastre na notoriedade deve lhe bastar e agradar. Pouco importa que a foto na galeria de ex-presidentes exiba uma máscara cirúrgica ou de bandido, ele de todo jeito vai gargalhar seus perdigotos por cima de uma frase obscena qualquer que escandalize as redes sociais e estigmatize o comunismo, e pronto, talquei.


Bolsonaro parece ser feito inteiramente de matéria perversa, como um estraga-prazer de acertos e avanços que o mundo possa apresentar. Diverte-se no elogio da tortura e da homofobia, no pouco caso com a cultura, a vida humana, a educação formal ou de qualquer tipo. Isso aliás não é novidade nenhuma, tampouco alterou-se desde que ele tomou posse. Ao contrário da decepção que tentam alegar alguns arrependidos, é talvez o presidente que mais confirmou e atendeu as expectativas criadas durante a campanha eleitoral.


Serviria a um bom estudo clínico saber quais desvios precoces ou tormentos familiares produziram tal criatura. Sabe-se, em todo caso, que planejou explodir bombas em quartel do exército e por tal fato foi julgado, condenado por unanimidade em instância inferior e estranhamente absolvido pelo Supremo Tribunal Militar. Era o ano de 1988, com Ulysses Guimarães manifestando nosso nojo à ditadura na promulgação da constituinte. Seis meses após a absolvição, Bolsonaro estreava na política como vereador eleito. Dois anos depois, seria o deputado federal mais votado do Rio de Janeiro.


Desde então, manteve-se como uma voz de jagunço militar dentro do Congresso, sempre na defesa aguda da ditadura e de quanto estropio esta tenha cometido, até o chamado em 2016 para encarnar a celebridade que vemos hoje. Não há dúvida de que é um artista competente para o papel que lhe coube, e os inacreditáveis trinta por cento de aprovação que ainda exibe atestam bem isso. E talvez se possa dizer que criou vida própria, de capital político perigosamente apartado do script, mas é na origem e essencialmente um fantoche.


Nas últimas semanas, acumularam-se sinais de que sua utilidade se esgota. Ele próprio parece acirrar a indisposição com a imprensa, a opinião pública e o resto do planeta em benefício de uma situação limite. Bolsonaro formou seu governo com um amontoado de militares da reserva e de forma crescente da ativa, ao ponto de que os quatro ministérios que atendem no Planalto têm comando fardado. Isso sem contar o vice Mourão e o porta-voz, também general do exército. Não é de se crer que essa hegemonia de alta patente tenha lá muito respeito pelo capitão insubordinado que cerca e tutela.


A maldade que Bolsonaro representa não é etérea, nem ocasional, nem exclusiva das milícias do estado do Rio. Tem raiz e respaldo no sadismo da ditadura, no pior que ela produziu e se livrou de responder, e que se perpetuou através do conformismo e do medo com que o Brasil tratou o regime e seus criminosos. Bem à vontade, ela parece agora a um passo apenas de construir um retorno triunfal, que não se duvide fosse anunciado amplamente por aí como democrático, reconfortante e indispensável: o importante era tirar o Bolsonaro.



Foto Marcos Correa

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