Dragão da inflação zero 


Se numa guerra a primeira vítima é a verdade, em campanha eleitoral nem se fala. Mas devia ter uma convenção de Genebra pra isso também, coibindo excessos. Tudo bem que reclamem do baixo crescimento, que anunciem com grande alegria uma recessão técnica antes de existir, que denunciem o penteado da Dilma, na falta de outra corrupção alarmante. Mas alardear a volta da inflação, como se tem feito, é forçar demais a barra. O IPCA do mês de julho foi de 0%. Zero vírgula quanto? Zero vírgula zeeeero. Mais exatamente, foi de 0,01%. Um centésimo de um por cento. Ah, mas então ela persiste, diria aquele analista imparcial. O dragão da inflação está de volta!

No mês anterior, mesmo com o auê de uma Copa do Mundo em que se previam preços hiperarrochados (e muitos o foram, em abril e maio), ficou em 0,4%. Nos sete primeiros meses do ano, em 3,76%. Sim, há uma tendência a encostar no topo da meta, como sempre houve, estamos com 6,5% no acumulado de doze meses e já estivemos com menos de cinco (mas também de 7,3%) desde 2010. Mas ora, por favor, para quem viveu o tempo em que a Transbrasil servia feijoada e a inflação mensal batia nos três dígitos, isso não é nem uma variação, é uma modorra, é notícia de se pegar no sono.

Índices econômicos costumam ser um matagal que sempre se pode manipular à vontade, podando ou adubando aqui e ali, e mancheteando algum como o pior para o mês de outubro na região sul, em anos pares de muita chuva, desde 1800. Quem gosta desse tipo de coisa, talvez goste de saber então, também, que nos três primeiros anos do governo Dilma a inflação média foi de 6,08%, contra 7,53% nos três primeiros do Lula e 12,40% do FHC.

Aécio Neves, durante o debate da Band, arriscou-se mais que o aconselhável perguntando às telespectadoras donas de casa se compravam hoje na feira, com o mesmo dinheiro, o tanto que compravam seis meses atrás. É uma pergunta capciosa, de resposta previsível em qualquer lado do planeta, e Aécio na sequencia deu-se ao luxo, então, de convidar a votar em Dilma quem pudesse responder que sim.

Pois bem: fui consultar a tabela da Cesta Básica Nacional, reconhecida pesquisa mensal do Dieese em feiras, supermercados, açougues e padarias. Em especial os dados de Belo Horizonte, para harmonizar com os mineiros Aécio e Dilma. De janeiro a julho deste ano, o valor da Cesta subiu de R$ 306,01 para R$ 308,35. Uma diferença de R$ 2,34 ou de 0,7 percentuais, em seis meses. Ou seja, pelo custo aproximado de oito bananas em BH, Aécio safou-se de virar cabo eleitoral da reeleição de Dilma.

Mais ainda, se calcularmos esses seis meses a partir de fevereiro (R$ 308,16), presumindo que a Cesta de agosto (ainda não fechada) se mantenha igual a julho, mês de inflação zero, então a diferença que restaria às donas de casa apontarem para o Aécio seria de apenas... uma banana. Muito justo.

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