De PIGs e mulheres de verdade 


Ana Amélia divulga nota mas... (Sul21)

Amélia é que era mulher de verdade. Vasculha-se a vida dela, e o que se encontra? Trabalho! Apenas trabalho! Não bastasse chefiar uma sucursal em Brasília, fazia mais quarenta horas semanais de clipagem por um salariozinho extra miserável, de R$ 8.115,00. Sabe-se lá como dava conta do serviço, decerto passando fome ao lado do marido e achando bonito não ter o que comer. E agora essa gente, que nunca vi fazer tanta exigência, tenta destruir tal reputação ilibada, como se Amélia houvesse se tornado uma mulher de inverdades.

Por essas e outras que eu aguardo tão ansiosamente as campanhas eleitorais. É roupa suja lavada na praça, é uma carnificina moral dura de assistir, mas vem junto no pacote muita diversão garantida. Minha preferida é assistir o Jornal das Dez, da Globo News. Com uma dúzia de comentaristas, e audiência bem menor que a TV aberta, passa a impressão de uma roda de amigos partilhando de bom vinho e petiscando um neoliberalismo antipetista básico. As matérias são todas negativas, claro, mas com moderada agressividade, para que ninguém perca o sorriso e a elegância ao distorcer uma informação. Exceto o Merval Pereira, sempre em rubores de indignação perante a corrupção ungida nas trevas e furnas do governo. Já quando a economia mostra sinais positivos, ou quando a Dilma sobe nas pesquisas, é um abatimento geral. O pessoal fica soturno, e o Merval tão mais gago que a gente se sente até consternado.

 

 

De tempos para cá, essa mídia conservadora brasileira tem se assumido abertamente como uma oposição funcional ao governo do PT,  honrando o apelido consagrado de PIG – Partido da Imprensa Golpista. Tanto que até tira a graça da coisa, de saborear numa matéria a perfídia maliciosa e sedutora a ser desvelada. Uma capa da Veja, por exemplo, é como sexo explícito transposto para o jornalismo político. Não causa mais nenhum frisson, aquele lixo semanal de acusações e denúncias sem comprovação. A Folha, repercutindo a mesma baixaria, por vezes oferece algum contraponto bem desproporcional ou um remorso retardatário pela voz do ombudsman. Mas é um disfarce inútil, pra quem é dono de um enorme nariz de tomada. Nessa última sexta-feira 12/09, a coluna de Eliane Cantanhêde, na página dois do jornal, comentava a queda de Marina Silva nas pesquisas com o título singelo de “Ai, que medo!”.

Aqui no Rio Grande do Sul, onde impera um virtual monopólio de comunicação da RBS, esse posicionamente é ainda mais franco e literal. Não se trata de fazer campanha para uma representação política conservadora, mas de assumir a administração em si. Ana Amélia é a tentativa de emplacar pela terceira vez como governador do estado um ex-funcionário da empresa.

Considerando o desastre das duas primeiras experiências, com Antônio Britto e Yeda Crusius, é difícil crer que o eleitorado gaúcho possa se iludir uma vez mais com um discurso crivado de lugares comuns como esperança, bondade e trabalho, mas que não resiste à mínima investigação séria sobre o seu passado, nem pode ocultar as implicações reais de um projeto político com o mesmo perfil e os mesmos partidos que sustentaram a ditadura e, mais recentemente, levaram o estado à beira da falência.

A não ser que se diga que obedecemos a um dono, ou que somos Amélias como a da canção, sem nenhuma vaidade, a quem pudesse contentar o papel de bater palmas para a realidade como se fora um programa de televisão. E que, cegos, perante o poder desmedido do capital e da mídia nunca contrariados, não nos restasse mais que perguntar, meu filho, o que se há de fazer?
 

 

 

Dragão da inflação zero 


Se numa guerra a primeira vítima é a verdade, em campanha eleitoral nem se fala. Mas devia ter uma convenção de Genebra pra isso também, coibindo excessos. Tudo bem que reclamem do baixo crescimento, que anunciem com grande alegria uma recessão técnica antes de existir, que denunciem o penteado da Dilma, na falta de outra corrupção alarmante. Mas alardear a volta da inflação, como se tem feito, é forçar demais a barra. O IPCA do mês de julho foi de 0%. Zero vírgula quanto? Zero vírgula zeeeero. Mais exatamente, foi de 0,01%. Um centésimo de um por cento. Ah, mas então ela persiste, diria aquele analista imparcial. O dragão da inflação está de volta!

No mês anterior, mesmo com o auê de uma Copa do Mundo em que se previam preços hiperarrochados (e muitos o foram, em abril e maio), ficou em 0,4%. Nos sete primeiros meses do ano, em 3,76%. Sim, há uma tendência a encostar no topo da meta, como sempre houve. Estamos com 6,5% no acumulado de doze meses. De 2010 pra cá, já estivemos abaixo de cinco – mas também acima de 7%. Então, por favor, para quem viveu o tempo em que a Transbrasil servia feijoada e a inflação mensal batia nos três dígitos, isso não é nem uma variação, é uma modorra, é notícia de se pegar no sono.

 

 

Índices econômicos costumam ser um matagal que sempre se pode manipular à vontade, podando ou adubando aqui e ali, e mancheteando algum como o pior para o mês de outubro na região sul, em anos pares de muita chuva, desde 1800. Quem gosta desse tipo de coisa, talvez goste de saber então, também, que nos três primeiros anos do governo Dilma a inflação média foi de 6,08%, contra 7,53% nos três primeiros do Lula e 12,40% do FHC.

Aécio Neves, durante o debate da Band, arriscou-se mais que o aconselhável perguntando às telespectadoras donas de casa se compravam hoje na feira, com o mesmo dinheiro, o tanto que compravam seis meses atrás. É uma pergunta capciosa, de resposta previsível em qualquer lado do planeta, e Aécio na sequencia deu-se ao luxo, então, de convidar a votar em Dilma quem pudesse responder que sim.

Pois bem: fui consultar a tabela da Cesta Básica Nacional, reconhecida pesquisa mensal do Dieese em feiras, supermercados, açougues e padarias. Em especial os dados de Belo Horizonte, para harmonizar com os mineiros Aécio e Dilma. De janeiro a julho deste ano, o custo da Cesta subiu de R$ 306,01 para R$ 308,35. Uma diferença de R$ 2,34 ou de 0,7 percentuais, em seis meses. Ou seja, pelo valor aproximado de oito bananas em BH, Aécio safou-se de virar cabo eleitoral da reeleição de Dilma.

Mais ainda, se calcularmos esses seis meses a partir de fevereiro (R$ 308,16), presumindo que a Cesta de agosto (ainda não fechada) se mantenha igual a julho, mês de inflação zero, então a diferença que restaria às donas de casa apontarem para o Aécio seria de apenas... uma banana. Muito justo.

 

 

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